19 de abril de 2021

Por que se fala tanto em ESG?

Nos últimos meses, o termo ESG ganhou espaço no cenário corporativo. As empresas têm trazido à tona diversas discussões acerca do tema e adequando (ou até mesmo criando) equipes para trabalhar com isso.

 

Para entender melhor o que é, afinal, ESG, conversamos com a professora Natalia Tamura. Doutora em Ciências da Comunicação pela USP, Natalia é também pesquisadora e docente do curso de Relações Públicas na Faculdade Cásper Líbero e do MBA da Aberje (Associação Brasileira de Comunicação Empresarial), e representa a Associação na Plataforma de Comunicação e Engajamento do Pacto Global da ONU.

Natália tamura Por que se fala tanto em ESG
Natalia Tamura, Doutora em Ciências da Comunicação

O que é ESG e por que esse tema está sendo tão discutido atualmente?

 

ESG é a sigla em inglês para Environmental, Social e Governance. No Brasil, comumente, traduzimos por ASG (ambiental, social e governança). Na prática ESG significa um conjunto de fatores e critérios que tornam um investimento mais sustentável no sentido de valorizar questões ambientais, sociais e de governança corporativa. É um tipo de estratégia em que o lucro ainda é o objetivo, ainda que a maneira de o conseguir seja diferente: realoca-se o dinheiro para projetos que objetivam um mundo mais justo e igualitário e que tenha maior responsabilidade no uso de recursos naturais e preservação do meio ambiente, por exemplo.

 

A sigla passou a existir em 2004 em uma publicação da ONU em parceria com o Banco Mundial, chamada Who Cares Wins – Connecting Financial Markets to a Changing World (Quem se Importar Vence – Conectando o Mercado Financeiro para Mudar o Mundo). Surgiu de uma provocação do secretário-geral da ONU, Kofi Annan, a 50 CEOs de grandes instituições financeiras, sobre como integrar fatores sociais, ambientais e de governança no mercado de capitais. O documento propunha uma nova forma de investidores e instituições financeiras avaliarem as empresas na hora de investir. Na prática, foi a sugestão de uma nova cartilha de regras e recomendações para que as questões relacionadas à ESG fossem levadas em conta. O movimento deu ensejo para em 2006 surgir o Principles for Responsible Investment (PRI), uma rede global de investidores institucionais apoiada pela ONU, que disseminou o conceito de investimento responsável, aquele que leva em conta a sustentabilidade.

Como o tema é tratado no cenário mundial?

O mundo, em especial Europa e Japão, já discutem efetivamente o tema ESG há pelo menos duas décadas. Na União Europeia, a partir desse ano, foi criado um sistema de classificação das finanças sustentáveis para fundos que queiram ser chamados como ESG. Aqueles que não atendem aos critérios preestabelecidos, não contemplam a chamada taxonomia verde. Segundo dados do Global Sustainable Investment Alliance (2020), hoje a indústria de investimento responsável já chega a US$ 31 trilhões no mundo, o que representa 36% dos ativos financeiros totais sob gestão. 

 

Um dos principais defensores do tema ESG é Larry Fink, presidente da maior gestora do mundo, a BlackRock, que tem cerca de US$ 8 trilhões (quase seis vezes o tamanho de toda a indústria brasileira de fundos). Desde ao menos 2016, Fink aborda a questão da sustentabilidade e do investimento responsável em entrevistas e nas famosas cartas anuais da empresa, que costumam ditar tendências no mercado. Em 2021, a BlackRock pressiona empresas a adotarem metas de emissões zero em 2050, atentando que poderá abandonar investimentos de empresas poluentes.

 

Por que as empresas brasileiras estão incorporando a temática em suas rotinas?

Porque a adoção de uma agenda ESG pelas empresas traz diversos impactos positivos como vantagens competitivas, melhora de reputação e imagem, ampliação de diálogo com seus diversos públicos e, especialmente, maior lucratividade. No Brasil e no mundo investidores tem percebido a importância de fazer investimentos em empresas que não sejam apenas lucrativas, mas que sejam capazes de conduzir seus negócios de forma saudável para seus públicos, para a sociedade e para o meio ambiente. Uma empresa que incorpora no âmago do seu negócio práticas ambientais, sociais e de governança demonstra não apenas maturidade, mas desempenho econômico e financeiro mais competitivos. 

 

Em agosto de 2020, o The New York Times destacou como Fundos ESG cresceram mais que fundos tradicionais na bolsa de Nova York mesmo durante a pandemia. Desde a sua criação, em 2005, o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), entregou uma rentabilidade superior à do Índice Bovespa – enquanto o total da Bolsa cresceu 223%, a carteira ESG subiu 296%¹. Além disso, no último ano foram criados no Brasil cerca de dez fundos de investimento baseados no conceito de ESG. Falamos de um movimento cada vez mais impactante em relação a ganhos mútuos – ganha a empresa que incorpora as premissas ESG, ganham os investidores e ganha a sociedade beneficiada por práticas justas e duradouras. 

Existem indicadores que possam “medir” a incorporação do ESG pelas empresas?

Sim, algumas agências classificatórias desenvolveram sistemas de classificação ESG, conhecidos como rating ESG, disponibilizando seus relatórios aos clientes do mercado financeiro. Primeiramente elas analisam a área de negócio da empresa para entender quais são os fatores mais relevantes em sua atividade. Depois, mapeiam a presença ou ausência de diretrizes e práticas relacionadas aos temas ESG, levando em conta que aspectos geográficos também podem influenciar.

 

A MSCI e Sustainalytics são algumas dessas agências classificadoras. A MSCI tem na sua base 8,5 mil companhias e a classificação proposta por ela vai de CCC a AAA. Quanto mais próxima de CCC, mais distante a empresa está dos critérios ESG. Quanto mais próxima de AAA, mais avançada. Já a Sustainalytics, com uma base de 12 mil companhias cadastradas, tem como proposta classificar uma empresa de 0 a 100. Quanto maior o número obtido pela empresa, melhor é o gerenciamento dela relação às medidas ESG. 

 

Vale destacar que, apesar dessas agências de rating ESG terem metodologias próprias para compor sua classificação, não existe um consenso no mercado sobre qual o melhor framework aplicado atualmente. Além disso, como esse sistema classificatório não é obrigatório e o termo ESG não é um selo ou título concedido por uma instituição, as próprias empresas podem declarar se adotam ações com caráter ESG em seus relatórios de sustentabilidade, podendo, em alguns casos, interpretarem aquilo que lhes convém.  

Com essa tendência do ESG, o que muda para na prática para o consumidor final?

O consumidor ao comprar de uma empresa que adota em seus negócios critérios ESG valoriza, sobretudo, a consciência social e ambiental de uma marca. É como se esse consumidor apoiasse empresas que, de fato, atuam com ações concretas em relação a valor e segurança em vários sentidos. Consumir produtos ou serviços de uma empresa preocupada em atuar nos parâmetros ESG é apoiar, de certa maneira, causas ambientais e sociais, como uma cadeia de fornecimento justa (sem trabalho escravo ou infantil envolvida), a utilização de leis de incentivo fiscal no apoio ao desenvolvimento de entornos nem sempre tão favorecidos economicamente, o uso mínimo de extração de recursos naturais e a responsabilidade com os resíduos gerados na produção de produtos, além do incentivo a uma empresa ética na condução dos seus negócios e satisfação à sociedade. 

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